
A chegada de quatro seleções sul-americanas às quartas-de final me gerou um sentimento regionalista, mas que abrigava uma satisfação mais ampla que vinha da sensação de achar que algum tipo de justiça estava sendo feita ao celeiro que gera e exporta jogadores há muitos anos e nunca se encontra representado ‘em bloco’ nas fases pós-eliminatórias. No fundo eu não imaginava que os quatro passassem à próxima fase e o resultado final não me surpreendeu, apesar de não achar um absurdo se coisa diferente acontecesse. Passada minha euforia inicial, as coisas foram entrando nos eixos e a realidade imperou inequívoca, o que não me perturbou em nada, pois minha irritação é proveniente da origem de duas das derrocadas.
As desclassificações de Brasil e Argentina têm contornos semelhantes. Ambos têm estruturas institucionais retrógradas onde imperam a falta de profissionalismo, o nepotismo, o corporativismo, o clientelismo, interesses econômicos originados em território neutro, uma série infindável de males que minam a capacidade organizacional e clareza de objetivo de qualquer empreendimento realmente voltado para o fortalecimento do esporte do país que a camisa representa.
Do lado uruguaio e paraguaio os projetos para a disputa da Copa foram construídos de forma totalmente diferente do oba-oba monástico montado pelo Brasil, e da ‘cerejinha do bolo’, a patomima representada pela Argentina.
***
O caso argentino
O principal exemplo de má gestão do projeto argentino é a entrega do comando técnico de sua seleção a um ex-jogador sem nenhuma experiência profissional para o cargo. Se era uma aposta maluca, se tornou uma decisão irresponsável à medida que Maradona sistematicamente provava ser, além de um neófito, um sujeito destemperado emocionalmente e agarrado a práticas populistas, convocando à esmo e sob critérios não objetivos.
A distância que existe entre Maradona – o treinador – e um José Mourinho é semelhante à que separa o futebol de um Robinho do que jogou o Pelé.
Escrevi sobre o sentimento de Maradona em relação ao seu país, mas escrevi sob o efeito que a nefasta gestão da CBF me fazia ao coração e à mente. Escrevi com raiva. Logo após ter publicado o texto, Maradona vem a público com uma estória de ‘cereja do bolo’, se referindo ao Messi. O culto a personalidades me causa náuseas e a criação de mitos e celebridades à fórceps mais ainda, porque implica em ‘personalidades’, ‘mitos’ ou ‘celebridades’ falsos ou, no mínimo, duvidosos, além de ser um estímulo à desagregação do grupo. Fora as razões objetivas que me levam a condenar a eleição de um astro ‘solo’, o que, no íntimo, considero filosoficamente desprezível.
Confesso que estive perto de apagar a postagem, mas acho que optei por mantê-la como forma de autopunição ou para ter registrada a marca de um tropeço me lembrando de contar até dez – ou até quanto seja necessário para que a ira seja aplacada – antes de dar a primeira rabiscada e assim evitar escrever com o fígado.
Cometi um erro primordial ao não perceber que Maradona era apenas um egocêntrico carente. Em suas ações no papel de treinador de futebol, antes e durante a Copa, se escondia – ao menos para mim, pois não consegui percebê-lo – a intenção de atrair os refletores para sua figura, que andava tristemente – para ele – longe do universo épico dos gramados. E todo esse esforço tinha origem na necessidade do ex-craque de viver eternamente na ribalta.
Seu novo espetáculo teve sucesso frente a algumas plateias, porque Maradona tem lá o seu charme. No entando, em meu entender, a dissimulação da artificialidade do novo número não resistiu ao segundo ato e inclusive reforçou a imagem do jogador de ‘la mano de Dios’. Ator ou impostor? Fiquei pensando nisso...
A equipe argentina foi o retrato de Maradona, mas sem seu futebol. Desorganizada, perdida, sem rumo, individualista e arrogante. Quando enfrentaram um time que era o oposto desse conjunto de atributos estorvantes, o resultado não poderia ser outro.
Lionel Messi, no turbilhão de ações e emoções confusas e perturbantes, provavelmente nem percebeu que estavam usando sua fama e figura para encobrir o péssimo espetáculo produzido pela federação de seu país, no qual Maradona se escalava como astro principal, acreditando ser um grande ator dramático no papel de grande treinador, não sendo nem um e nem o outro. O ótimo jovem atacante marcou seu primeiro e único gol na Copa (?!) em um treino às vésperas da partida que o mandou de volta à Espanha.
Por que desperdiçar cereja em um bolo estragado?
***
O caso brasileiro
Os aparentes erros do ‘projeto brasileiro’ são semelhantes aos do empreendimento argentino, mas sem cereja, sem bolo, sem refrigerante, sem pipoca, sem celular, sem internet, sem televisão e sem um pio!
***
O caso Paraguaio
Ao contrário dos casos brasileiro e argentino, o Paraguai tinha um projeto bem definido: tinha a intenção de se organizar da melhor maneira possível para disputar uma Copa do Mundo e ponto final. Sem ‘cerejinha’, sem celebridades ou perebas de confiança e sem os patrocinadores faustianos.
A campanha que levou o Paraguai às quartas-de-final foi surpreendente desde o processo classificatório regional. A boa montagem da equipe, a preparação física e técnica, a coesão do time e a disposição de seu comportamento em campo demonstraram ótima capacidade administrativa da cúpula diretora.
Errei ao colocar em dúvida o foco das atenções da direção paraguaia, por acreditar ser um indício de frouxidão o fato de terem se transferido para um espaço menos austero, para sua concentração às vésperas da disputa contra a Espanha. Aparentemente a mudança não teve nenhuma influência negativa no comportamento da equipe. Pelo contrário, estavam ainda mais concentrados e com um preparo físico impecável. Perderam para uma grande equipe e, não fosse um erro de arbitragem que os tomou um gol legítimo, além de um pênalti desperdiçado, a sorte do time paraguaio poderia ter sido outra.
Mesmo acreditando ser um erro retardar a entrada de Lucas Barrios, provavelmente pensando numa possível prorrogação, as escolhas estratégicas do treinador Gerardo Martino surtiram efeito durante a competição, pois tiraram bom proveito do material do qual dispunha. Fora a estratégia, o técnico montou uma equipe muito bem organizada taticamente e seus comandados estavam bem preparados psicologicamente e trabalhando em conjunto.
***
O caso uruguaio
A exemplo do Paraguai, o projeto uruguaio também tinha diretrizes muito diferentes das traçadas pelas cúpulas dirigentes de Brasil e Argentina.
A postura dos jogadores e a forma como levaram a cabo as estratégias de Oscar Tabárez revelavam a cada partida o alto grau de entendimento que tinham da proposta de seu treinador e o quanto diferiam do individualismo, da desorganização, da falta de discrição e da arrogância dissimulada dos grupos brasileiro e argentino.
Os meios usados pela seleção argentina e os motivos da brasileira não têm nenhuma relação com o que move a seleção uruguaia e, talvez por isso, o fim de ambas já se deu e esta sobrevive.
O Uruguai tem ares do Botafogo do Carioca de 2010, com a vantagem de possuir um elenco individualmente mais capaz em todos os sentidos.
E é pelo espírito de luta, pela inteligência individual e coletiva, pela circunspecção voluntária e ‘espirituosa’, pelo discernimento com que evitam a afetação ridícula e o peso morto da vaidade e – por que não? e muito mais! – por nosso camarada El Loco, que me sinto honrado por me juntar à torcida uruguaia.
Avante, Celeste!
***
O carrossel já não me deixa tonto
Das três seleções europeias que estão na disputa a Holanda é a que menos me agrada aos olhos. Paradoxalmente, a Espanha e a Alemanha de 2010 me lembram mais a imagem que tenho do futebol holandês do que a própria Holanda. Talvez seja isso o que Cruyff critica em seu selecionado: também à Holanda falta ‘a magia do futebol’.
Enquanto espanhóis e alemães jogam um futebol dinâmico e criativo, a Holanda joga com as tais ‘linhas de quatro’, mudando o lugar de peças aqui e ali, sempre esquematicamente.
Se a arbitragem não tivesse sido tão parcial na distribuição de cartões, favorecendo Espanha e Holanda de forma despudorada, apostaria todas as fichas no Uruguai, pois também haveria desfalques do lado holandês. Como a Celeste vem muito desfalcada e a violenta Holanda está completinha, me limito a apostar somente o 13 na casa azul e pronto.
Saudações botafoguenses!













































