
O comentarista Caio disse que a diferença entre o futebol japonês e o africano é o investimento em ‘qualidade’ que faz o Japão, enquanto os ‘africanos’ investem em força física.
Não sei exatamente a que tipo de qualidade Caio se referia – porque não ficou claro –, uma vez que força física também é, no meu entender, uma qualidade positiva.
Se associou o conceito de ‘qualidade’ à eficiência do comportamento competitivo dos japoneses, que os levou à classificação, Caio está correto.
Se se referia a organização tática, juntou no mesmo bolo Camarões e Gana, o que é uma injustiça com os ganeses, cuja disciplina tática é excelente.
Agora, se falava sobre ‘qualidade técnica’, Caio não foi injusto e nem está correto. Está, na verdade, completamente enganado. Os japoneses, apesar da boa disciplina, obstinação e capacidade de aprendizado, serão por muitos e muitos anos inferiores tecnicamente à maioria dos jogadores da costa oeste da África, desde Costa do Marfim até Gana.
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Conversando com meu irmão sobre o ‘fracasso’ africano – lamentando –, falando sobre o quanto fiquei chateado com a falta de objetividade e de sentido coletivo, de como me irritava o exibicionismo e as firulas, fatores que a meu ver foram as principais causas da classificação de apenas uma das seleções do continente, ele me falou que ‘os caras são assim mesmo’. Disse que para a maioria dos jogadores africanos o que importava era o espetáculo e não a vitória. “Você acha que eles estão preocupados em vencer ou perder? Eles estão de olho é nas arquibancadas cheias, jogando para eles mesmos e para a plateia.”
Pois o meu irmão me deu a dica para entender a perspectiva antropológica da visão do Caio e o equívoco na minha espectativa.
Para o comentarista, o conceito de ‘qualidade’ é aquele que corresponde aos padrões culturais dele, da cultura que assimilou ou foi forjado a aceitar. Significa, deduzo, acreditar que a vitória seja o mais importante, se alinhando ao pensamento hegemônico, apesar de ser uma distorção do que pregava Coubertin, que considerava o esforço para superar o adversário mais importante que a vitória.
Não estou no mesmo barco do Caio, mas sigo no mesmo sentido, pois sou totalmente ‘Coubertin’. As direções são as mesmas, porém, a navegação não é, uma vez que a vitória, para o meu gosto esportivo, que não deixa de ser artístico, é menos importante que o bom espetáculo.
É óbvio que a maioria das seleções africanas que disputaram – Gana ainda está viva – a Copa de 2010 não pensam como o Caio e nem como Coubertin. Pior para mim, que gostaria de continuar por mais algum tempo vendo jogadores como o Kanu, que, apesar da idade, trata a bola como parceira e extrai do futebol algo que se parece com o que acreditamos poder chamar de ‘arte’. Kanu e muitos de seus vizinhos do continente.
O problema causado pelo Homem ao aplicar o darwinismo à humanidade é esse, pois agora, depois que muitos dos bons de bola se foram, me resta ficar ‘apreciando’ os eficientes.
Não é à toa que eu prefiro a música.
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Mais um império caiu
Foi só sair o filho do técnico, que a Eslováquia desencantou. Vladmir Weiss é bom de bola? Acho que sim. Mas recuar o Hamsik para enfiar um pouco de nepotismo numa seleção nacional é um disparate.
A Itália se foi e ficou a pergunta: Por que o tal de Quagliarella não era titular?
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Camisa 10
(Wesley Sneijder)
Falei muito do Mitsuo, o ‘oito’ do Japão, mas a camisa 10 vai para Sneijder depois da rodada de ontem. O passe que deu para Robben, no lance que originou o segundo gol holandês, tem a marca de um legítimo dez.
No começo da partida Mitsuo quase marca o seu e deu um lindo passe para o sobrevalorizado, Haseve. Depois disso foi eficiente, se portando como uma espécie de Zinho.
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Kaká é filho de Deus: retirado da sessão ‘Grandes Novidades’
Em entrevista coletiva, Kaká disse que Juca Kfouri o criticara porque o jornalista era ateu e ele era Jesus (foi ele que literalmente disse isso). Tudo bem, pode-se aceitar que ele tenha se expressado mal. Mas pode-se também acreditar que cometeu um ato falho. Seja como for, se Kaká é Jesus ou Genésio isso eu não sei, mas sei que hoje, mesmo que Deus não compareça pessoalmente, o time entra em campo com menos um jogador bichado.
Pena que quem o substitui é um filho de Deus como qualquer um de nós.
Saudações botafoguenses!