
Inventei um intervalo no trabalho e dei uma saidinha. Não precisava ir ao banco ou à padaria e nem sentia necessidade de tomar um pouco de ar, porque gosto do meu ambiente de trabalho, uma sala fechada.
Saí simplesmente pra dar um passeio com ‘a camisa’.
Foi sair portão afora e já avistei ‘um semelhante’, uma pessoa vestindo a camisa do Botafogo.
Era uma moça de uns 15 anos. Percebi que ela me viu à distância e, meio retraída, balançou o olhar pro lado e depois pra baixo, talvez insegura se deveria me dirigir o olhar, o que me fez achar que ela estava encabulada. Deve ter pensado: “E agora? Esse cara vindo na minha direção com uma camisa ‘igual’ à minha...”
Não poderia deixar de cumprimentar o primeiro alvinegro – no caso, alvinegra – que encontrava no dia, mas, percebendo o aparente desconforto da minha desconhecida camarada botafoguense, fiquei eu também meio constrangido.
Sorri. O que mais? Ela pareceu aliviada – “não foi tão ruim assim”, deve ter pensado – e sorriu também. Parecia feliz da vida e com todo o direito e toda a razão.
Logo em seguida vieram mais dois botafoguenses e mais expressões de felicidade.
Uma botafoguense atravessou a rua.
O sinal abriu, e um motoqueiro botafoguense acelerou cruzando a imagem de um botafoguense no calçadão lá do outro lado do asfalto. Ele estava conversando com o guarda do bairro, o cabo Paulo César, o ‘PC’, que é vascaíno.
O sinal fechou, atravessei a rua e dei a volta na pracinha.
O trajeto me valeu um encontro com um casal de jovens botafoguenses – fiz um sinal de ok e fui respondido da mesma forma e sem afetações – e outro, com um grandalhão torcedor do América e que é botafoguense em segundo plano, que ao me avistar bradou: “Eu não te disse? É, campeão!”
Dei uma esticadinha até quase metade do quarteirão porque me lembrei das frutas-de-conde da manhã de domingo, que comprei na banca do Jorge.
Um botafoguense de barba branca bebia um chopp no boteco da esquina. O garçom do boteco é vascaíno: “Valeu! Me vingaram a roubalheira.”
O Jorge vende frutas há trocentos anos no mesmo lugar, numa banca de madeira chinfrim toda vida que, entra ano e sai ano, um desembargador nosso vizinho proíbe que os fiscais, o secretário de posturas, o de saúde e o prefeito da vez tirem dali.
A balconista da lanchonete japonesa que fica em frente à banca do Jorge – e não o contrário –, e que vende uns cones caros pra danar que a minha sobrinha me obriga a comprar gritou “mengo!” Eu disse: “Meus parabéns”. A colega da balconista disse: “Cala a boca, mané!” Eu repeti o que tinha dito antes.
Da farmácia do outro lado da rua saiu um casal de fisiculturistas botafoguenses com umas camisas bem apertadas. O tecido dos uniformes de hoje em dia é muito resistente.
O Jorge é tricolor e os mais velhos dizem que jogou um bolão “na areia”; “e de chuteira também!” Não tenho certeza, mas acho que ele jogou nos aspirantes do Fluminense.
O Jorge é conhecido como ‘o cara que deu um lençol no Gérson’.
O desembargador também torce pro Fluminense e deve ser por isso que não tiram a barraca do Jorge de lá.
O fruteiro é um sujeito ótimo, agradável inclusive quando bebe uns traçados bem servidos no bar Jóia. Me vendeu as frutas-de-conde e me ‘empurrou’ meia dúzia de caquis. Não gosto muito de caqui, mas ele disse que fazia pela metade do preço. Não vou recusar um ótimo negócio num ano que começou tão bem. Me deu os parabéns. “Ah, botafoguense... Lavou a alma.”
Na volta vi mais um botafoguense. Ele saía do prédio da Reitoria. Nos 50 metros finais foi só este último que vi e cheguei a estranhar a pouca quantidade.
Entrei e não sacaneei o porteiro, mesmo sabendo que era flamenguista.
Não imaginava que eram tantos os botafoguenses em Niterói. Uma camisa pode revelar muita coisa.
Da próxima vez que saírem de casa, meus amigos e amigas botafoguenses, vistam a camisa. Isso garante mais saudações e sorrisos do que de costume. Aproveitem o bom momento.
O Botafogo agradece e eu agradeço ao Botafogo.
Saudações botafoguenses!