
Um jogo com cinco gols não pode ser considerado um espetáculo feio. Isso não implica em que eu ache que foi uma bela partida. Mas um jogo que vencemos o líder do campeonato, de revirada e com um ‘gol de artilheiro’ aos 45 do segundo tempo, mesmo não sendo uma linda partida, com certeza foi um jogo ótimo de se ver.
O sol de rachar o crânio com certeza massacrou quem esteve em campo e vale relevar uma aparente 'moleza' aqui e ali.
As tramas de ataque botafoguenses não se mostraram muito claras e as são-paulinas foram barradas pelo meio-de-campo e defesa alvinegros. Acho que as condições climáticas extremas contribuíram para que todos tivessem o desempenho individual comprometido.
O dois gols são-paulinos resultaram de falhas defensivas, enquanto os nossos foram fruto de jogadas individuais. Ou seja, nossa defesa continua um fiasco e nosso ataque depende do brilho de algum jogador.
Do lado alvinegro um dos destaques negativos foi Wellington, que em todas as jogadas contra Washington deixou seu marcador proteger a bola e virar. No segundo tempo isso aconteceu duas vezes em uma mesma jogada. No lance do primeiro gol ficou prostrado olhando o são-paulino cabecear livremente e, no segundo, ficou dançando com os bracinhos para o alto, como se dançasse ao som de um trio-elétrico.
Outro ponto negativo de nossa equipe foi Fahel, inexplicável existência no meio futebolístico. Roubou algumas bolas, mas por descuido adversário. Sua completa falta de noção tática e visão de jogo compromete a todos. No primeiro gol sofrido não marcava ninguém. Vaga a esmo durante o desenrolar da jogada e nem mesmo se aproxima de Marlos, quando este perde o lance. Sua má leitura do jogo, em conjunto com Reinaldo, deixou Junior Cesar livre para fazer o cruzamento. No segundo gol, não se desloca para o lance crítico, não ‘cola’ em Hernanes – que estava na entrada da área –, em suma, nada faz.
Junte-se a estes Alessandro, Juninho, Lucio Flavio e Reinaldo. Em ordem: por não se empenhar 200%, sendo que é a única qualidade que tem; por serem os dois amarelões que sempre serão; por ser a empulhação do ano (com o risco de uma renovação de contrato).
Leandro Guerreiro, apesar de cumprir muito bem a função de anular a origem das jogadas adversárias, mostrou-se, como sempre, deficiente nos momentos decisivos, afrouxando o combate numa jogada claramente perigosa, e que resultou no segundo gol do São Paulo.
De bom, além do empenho de todo o grupo – com destaque para de Leandro Guerreiro neste quesito –, a boa disposição tática de Diego e Renato deu consistência ao meio-de-campo, mesmo que tenham errado algumas jogadas (Renato mais do que Diego).
Jefferson continua sendo nossa garantia defensiva (uma defesa incrível), mas Jóbson foi o herói da partida. A torcida já estava fazendo muxoxo depois do atacante perder alguns lances – ai, ai, ai, torcida. Mas, frente à inexistência de tramas ofensivas, suas jogadas individuais eram o que nos restava, além de parecer ser o que o treinador estipulou para ele.
De uma ‘sobra’ deu início à jogada que resultou num golaço. Envolveu o marcador e ainda aproveitou o rebote – sorte nossa que Victor Simões fechou os olhos e errou a bola –, deixando Renato livre para marcar. No terceiro gol fez o que um ‘artilheiro’, um ‘matador’, um legítimo ‘homem-gol’ deve fazer e deixou Miranda um pouco mais distante da Copa e o Botafogo um pouco mais próximo da salvação.
Ganhamos com a raça e com o brilho da estrela de Jóbson. Salve, Jóbson!
Gol da vitória aos 45 pode levar à morte, mas aos 48 morreria feliz da vidaNos dias que antecederam a partida de domingo estive à cata de um meio para ir ao jogo, mas não conseguia nada. Já estava psicologicamente preparado para enfrentar ônibus e trem, munido de um par de muletas. (Para quem não frequenta o blog, explico que estou me recuperando de uma fratura na perna).
Andar com muletas pode ser doloroso e, dependendo da distância, uma tortura passo a passo. A disposição para enfrentar ônibus e trem e mais a caminhada, deixava a coisa toda com jeito de ideia de maluco, mas enfiei na cabeça que tinha que ir àquele jogo.
Já tinha despistado as pessoas de casa dizendo que ia assistir ao jogo na casa de uns amigos, quando às duas da tarde toca o telefone. O sobrinho de um amigo – que estava tentando conseguir uma vaga numa dessas vans – ligou dizendo que alguém havia desistido e que eu tinha meia hora para me arrumar. Voei para o ponto de encontro e parti para o Engenhão com uma galera de jovens botafoguenses, gente muito boa.
Já no estádio, o pessoal se dispersou. A maioria ia para o setor Inferior Leste e eu queria ir lá para cima, me encontrar com o amigo Gil. Mas o elevador estava parado (!!!).
Fiquei um tempo olhando as rampas e concluí que enfrentar a subida seria heroísmo demais. Dei um jeito de me deixarem ficar lá por baixo, me esgueirando do sol no espaço reservado aos cadeirantes.
Vi o primeiro golaço do Jóbson meio que por baixo do braço de um feliz torcedor, que estava de pé, involuntariamente ‘quase’ na minha frente. Na emoção do gol, me levanto de supetão e a muleta crava no pé do sujeito, ‘quase’ involuntariamente.
Assisti ao time recuar, ao juiz acrescentar o tempo exato necessário para que o São Paulo empatasse, tendo ao meu lado um sessentão botafoguense, gente boníssima, que detestava Juninho, Alessandro, Lucio Flavio, Renato e Reinaldo, e que só gostava do Jefferson, do Diego e do Jóbson. Achei tudo muito estranho e troquei de lugar para o segundo tempo.
Fiquei no sol mesmo, porque a sombra estava descendo, ficava mais perto para xingar o Rogério Ceni (faz parte do jogo) e não gosto de proximidade com torcida alheia.
A virada veio como uma facada, mas por algum motivo eu estava muito confiante. Tinham uns flamenguistas por perto (meu ‘sensor alvinegro’ tem dessas coisas) e, por algum outro motivo, isso também parecia um bom sinal.
No meio da confusão da jogada que levou ao gol de empate eu já estava com as muletas pro alto e gritei 'gol!' antes do Renato enfiar a cabeça na bola. Passei mal com o pulo de uma perna só e voltei rápido para a cadeira, restabelecendo os sentidos.
Achava que dava para ganharmos a partida. O São Paulo perdia ótimas chances, estava com um jogador a menos, mas nossas jogadas pareciam confusas. Foi quando Juninho deu um carrinho digno de um troglodita lobotomizado, que me veio a certeza como um raio: a vitória era certa. (É bom registrar que isto não é do meu feitio).
Quando a bola sobrou para o Jóbson no mano a mano com Miranda, àquela altura do jogo, o gol não podia esperar pelo próximo lance. O herói da tarde deixou o zagueiro ‘de seleção’ dançando tipo um ‘cartoon’ e estufou a rede! Explosão total, Engenhão roncando no último volume, vdo no vermelho. Revirada! E a torcida com a expressão que deveria ser a de sempre.
Voltando à van, um camarada botafoguense, o único quarentão como eu, confessou que passou mal e teve que se deitar por um tempo, quando o juiz soprou o apito final. Contei a ele que minha pressão baixou na comemoração do gol de empate. Conversamos sobre jogadores dos anos 70 e concordamos que já estávamos numa idade perigosa para emoções muito fortes.
É certo que a carcaça já não aguenta o mesmo tranco, mas morrer ganhando é melhor.
Saudações alvinegras!
PS: Acho que o pessoal da van me considera um pé-quente, mas, pra mim, sorte é estar bem acompanhado. Salve, o transporte solidário!