
Cheguei ao Engenhão muito atrasado e ao passar em frente ao portão principal o som a torcida anunciou o gol. Já cheguei com os braços erguidos, comemorando de cara. “Estou com sorte hoje”, pensei.
Não deu tempo nem de chegar às arquibancadas e já sofremos o empate.
Quase voltei dali mesmo sem nem ver o gramado. Como saber se o problema não seria a minha presença?
Como não sou supersticioso, não acredito que uma só pessoa – das arquibancadas e sem o auxílio de um fuzil com mira telescópica – possa interferir no resultado de uma partida. E como estava munido com meu meião preto e não havia tocado em nenhum objeto de coloração azulada durante o dia, me tranquilizei.
Eis que no comecinho do segundo tempo, para meu total espanto, o trivial Victor Simões conseguiu ganhar uma e, mesmo fazendo de tudo pra carimbar o goleiro como de costume, muda o placar. Vibrei muito, mas logo a prudência me fez voltar ao prumo: isso está muito esquisito, pensei.
De onde estava não pude ver o que gerou as reclamações veementes de Lúcio Flávio e Estevam Soares, mas pelo telefone fui informado que a bola tinha saído ‘meio metro’, como assim me disse o botafoguense do outro lado da antena.
- Juiz safado, esse!
- ‘Guenta’ a mão, Biriba. Deixa eu acabar de escrever.
- Mas então escreve isso aí, cara!
Num período da partida em que o Botafogo pouco ou nada agredia, Thiaguinho cria uma situação de perigo, tenta cruzar, mas o zagueiro adversário corta com o braço e...
O juiz não marcou nada! NA-DA!!! Bem à minha frente, a uns vinte e poucos metros. Dispensaria a mira telescópica dali.
- Você não vai escrever que esse juiz é um ladrão safado que foi levado pra adoção ainda bebê, depois de ser encontrado na porta de um prostíbulo?
- Olha o linguajar, Biriba.
- Eu falei prostíbulo.
- É bom manter a compostura...
- Que ‘ura’ o quê! Você tá é ficando frouxo.
- Frouxo é quem não reclamou do roubo contra o time da Gávea, contra o Aflitos, contra o Santo André, o Atlético PR, o Palestra...
- Você sempre cria um artifício pra me forçar a concordar contigo. Você é irritante, cara!
Acreditava ingenuamente que o repertório do larápio terminara por ali, mas eis que o biltre inverte uma falta e a “defesa” alvinegra ‘deixa’ a bola entrar, para a alegria de uma colônia de smurfs que se agitava azuladamente lá do outro lado. Parecia uma jogada de pelada de perebas no Aterro.
- Quê que o Castillo ficou esbravejando depois do frango?
- Acho que foi “¿Vamos a compartir este pollo, Wellingtón?”.
(Tinha gente indo embora, mas a resignação não é do meu feitio. Pra mim, um jogo só termina quando um monstro acopla seu instrumento de heresias a um apito e desfere um som estridente e fatídico).
Estava perto da linha de fundo sendo entretido por um coro de gaiatos que xingavam o goleiro, quando Leandro Guerreiro deu um chute. A bola resvala, sobe e voa toda esquisita. Mas veio chegando, marota, traçando uma curva, caindo lentamente. A torcida paralisada implorando quase de joelhos pra ver aquela bola indecisa entrar. E ela vem caindo e chegando, o tempo parado, o coração na mão, apertado, até que a rede confirma com um balanço o que a torcida esperava em silêncio de monge, liberando o grito da galera. Uma explosão demorada.
Parecia que tinham-se passado eras entre o momento do chute e o gol. Mas a alma foi paciente e viveu um resquício denso de justiça.
Fui pra casa com uma estranha mistura de frustração e alívio no peito, certo de que as superações a que o Botafogo têm sido obrigado a realizar são um sinal de que o pior não vai se abater sobre nós.
Saudações alvinegras!



















