quarta-feira, 13 de março de 2013

Desenterrando ossos - fatos reais no Cemitério do Caju



Segunda-feira vesti uma camisa que eu entendia conter uma sutil alusão ao Botafogo, pois estava trabalhando em local público e não queria que alguma referência ao futebol interferisse no andamento das tarefas. Vocês sabem como é: uns contentes, outros nem tanto.

Não adiantou, pois os funcionários do local avistaram a estrela – sempre ela, inconfundível, o símbolo de clube mais marcante do futebol mundial. E começaram os comentários à minha revelia, eu me esgueirando como se não estivesse escutando, pois, como já disse, estava em expediente e qualquer intervenção minha seria ainda mais desastrosa do que o equívoco quanto à sutileza de uma estrela de cinco pontas sobre uma camisa preta de mangas brancas com uma pintura estilizada de uma torcida alvinegra numa arquibancada de estádio iluminado com gramado ao fundo.

Falou-se que o Botafogo levou a Taça; que mereceu; que não mereceu, nada; que o Flamengo foi que “deixou” (típico); que o Vasco se acovardou; que não era chororô “porque isso é coisa de botafoguense”, mas que aquilo foi pênalti, isso foi! (eu rindo por dentro, baixinho...); que isso era conversa de flamenguista que não sabe perder; que o Vasco é um eterno vice; que se o Vasco fosse um perdedor não teria não sei quantos Brasileiros e uma Libertadores; que flamenguista quando chora diz que é cisco no olho... E por aí ia, até que um senhor de uns setenta disse que só existiam três times grandes no Rio, e começou a lista pelo Fluminense. Eu sabia onde ele queria chegar e não faltou vírgula para saber que era tricolor.

Eu queria me manifestar, mas quanto mais a situação parecia sair de controle, mais eu respirava fundo e me escondia. Porque o aumento da confusão geral apontava na direção da minha camisa e eu estava a trabalho, deveria ser prudente, pensar nas consequências das minhas decisões – o que era de se esperar de mim, que fui contratado justamente por conta do meu suposto discernimento. Um impasse.

Porque o Flamengo conquistou isso e aquilo e o Vasco aquilo outro; e o Fluminense tem 30 Estaduais e tantos Brasileiros!; o botafoguense fica feliz com qualquer coisa; que não é time de tradição... seguia o velho tricolor.

Quando meu estômago já não aguentava mais, embrulhado com o que voltava da garganta fechada, forçando idas e vindas entre o duodeno e o cérebro – “Seu ídolo é o Rivelino, seu ídolo é o Rivelino!” – , eis que uma voz ressoou salvadora: “Pode não ter 30 ‘carioquinhas’, mas dizer que não é time de tradição é coisa de velho caquético. Eu sou flamenguista, mas não sou maluco!”

Quem diria, em uma discussão sobre futebol, ser salvo por um flamenguista! Que não se conteve: “E Libertadores? Tem?”

Alguns segundos intrigado, querendo saber o motivo de tanto ódio, quando um sujeito, que esteve calado durante toda a conversa, se aproxima nas encolhas e diz baixinho: “Ele grita é de tristeza; a felicidade acalma. Vamos aproveitar uma semana tranquila, porque ainda não acabou. Por enquanto está ótimo.”

Veio um quase insight, que escapou na fala: “Será que foi o Paulo Valentim? Ele ficou desse jeito por causa do Paulinho Valentim... É esse o motivo da mágoa!”, no que o botafoguense rebateu: “Deve ser. Cinco gols numa final de campeonato?! Ah, isso é ferida que não sara!” E foi saindo, lento, com um sorriso sereno.

E eu sosseguei.

Saudações botafoguenses!

2 comentários:

Gil disse...

Grande Luiz,
Grande Biriba,

Já conversamos sobre isso e já recebi alguns conselhos que tento aplicar, mas juro (e não sou melhor que ninguém) que gostaria de ter esse controle.
Juro que gostaria e preciso desse controle.
Vou conseguir, estou trabalhando para isso, porém é difícil. Muito difícil!

Abs e Sds, Botafoguenses!!!

Biriba disse...

Grande Gil!!!

A situação não me permitia me manifestar de forma alguma. Seria uma falha profissional enorme, devido às circunstâncias. Na verdade, eu estava era com um medo danado de que a coisa tomasse maiores proporções sem que eu desse nem mesmo um pio sequer.

A coisa toda ia piorando externa e internamente até a virada final e o desfecho, quando tudo se transformou com o surgimento da camaradagem botafoguense e uma sensação de paz interior ao perceber que a ira já tinha onde se estabelecer.

Confesso que o ódio do senhor funcionário em relação ao Botafogo me deixou perplexo. Não só pelas palavras, mas a expressão que não deixava mentir. Tenho certeza que teve um dia miserável, apesar de eu ter retirado todos o meus requerimentos de pragas quando a cena acabou.

Saudações botafoguenses!