quinta-feira, 8 de abril de 2010

Niterói

Amigos e amigas, minha cidade literalmente desmoronou.


O temporal de segunda-feira formou um mar em cima do caçadão da praia, não se via o asfalto e os carros balançavam nas ondulações que o vendaval provocava.

Eu dormia tranquilamente enquanto a tragédia se configurava, e o relato acima é a transcrição do cenário que meu irmão descreveu quando tudo já não passava de um forte temporal.

Pela manhã ouvi meu irmão ligando pro trabalho pra saber se ia ter expediente, porque “a Roberto Silveira (avenida importante pro tráfego da cidade) ‘ainda’ estava” e os funcionários ligavam seguidamente, preocupados por não estarem conseguindo transporte.

Pensei que se tratava de um alagamento dos que acontecem por aqui quando chove forte, um que estivesse durando um pouco mais que o habitual. Fiquei tranquilo. ‘Isso passa’, pensei.

Estranhamente Niterói parecia uma cidade fantasma. O costumeiro trânsito intenso da manhã deu lugar a um vazio de carros e pedestres como se fora tempo de férias, ou a cidade que conheci na infância. O ‘som’ da cidade era outro. Não imaginava que a causa daquele ‘silêncio’ fosse o que acabaria por descobrir bem mais tarde.

Estive enfurnado em minha sala de trabalho desde muito cedo, não li o jornal – não entregaram o que eu assino – e não conversei com ninguém. Não sabia de nada.

O primeiro indício de que as coisas iam ‘um pouco’ pior do que o de costume foi um telefonema de nossa doméstica dizendo que não viria trabalhar ‘por causa do que aconteceu’.

– Mas o que aconteceu? – Não tem ônibus. – Não me enrola, fala o que está acontecendo. Foi alguma coisa com o teu filho? – Não, ele está bem. – Diz que eu mandei um abraço. – Tá... – Mas então, o que que tem de errado? – Ah, está tudo fechado por causa da chuva. – Fechado? – É, fecharam a estrada. – Deve ter caído alguma terra por aí. – Não sei, só sei que disseram que parou tudo. – Tudo bem, tire aí um dia de folga e cuidado pra não pegar um resfriado, hein!

Achei que fosse um deslizamento, fecharam uma pista, o trânsito estava uma droga, isso acontece por aqui. O Rio tem disso: quando chove ‘de verdade’ a terra ‘desliza’.

Soube que o mercado e a lanchonete estavam fechados, o jornaleiro não veio. Deduzi o óbvio: foi a tal falta de ônibus.

Passei o dia refugiado do frio e da chuva – porque ando com uma gripe de lascar – e trabalhando normalmente. Não soube de mais nada.

Mais tarde meu irmão liga dizendo que houve deslizamentos, mas não entrou em detalhes, pois estava com pressa.

Liguei a TV pra ver um filme, mas não cheguei ao final.

Na manhã de ontem uma vizinha me disse que caíram ‘umas barreiras’. Fui à janela e percebi que a cidade ainda estava ‘vazia’.

As dezenas de surfistas se esbaldando nas ótimas ondas que a frente fria trouxe junto com as chuvas formavam uma cena bacana, porém, enganadora.

Uma amiga me liga perguntando se estava tudo bem comigo. Eu reclamei da gripe, mas notei que ela falava num tom meio esquisito. Perguntou se eu sabia o que tinha acontecido na Estrada Fróes, que um carro deslizou pra dentro da casa do Torben Grael, e que eu procurasse me inteirar das coisas se eu conhecesse alguém que morasse por lá, porque a coisa estava feia.

Eu respondi que não sabia de nada e ela foi relatando o que estava acontecendo, o tamanho dos estragos, a gravidade da tragédia, várias tragédias, dezenas de mortos, uma série de deslizamentos e etc, etc...

Foi então que liguei a TV, comprei um jornal local – O Fluminense – e comecei a acelerar o processo de ‘volta à realidade’.

Quedas de barreira em vários pontos da cidades, centenas de edificações destruídas, estradas bloqueadas, acesso via BR-101 cortado, Região Oceânica praticamente isolada, suspeitas de ‘arrastões’ pipocando em vários pontos da cidade...

A pouca quantidade de veículos e pedestres e o ‘silêncio’ mudaram de significado. A cidade não estava tranquila, estava ‘estranhamente calma’.

Surgiram quase subitamente carros de pelotões especiais zoando sirenes em correria e helicópteros da polícia. O ‘som mudou’, mas o estardalhaço não passou de mera redundância...

Me senti um alienado de sorte em meio a milhares de desabrigados, muitos deles que irão enterrar muitos dos mortos que certamente passarão dos cerca de oitenta que já foram contabilizados.

Nota: Saiba como ajudar os desabrigados: Canto do Rio Footbal Club

Saudações botafoguenses!

Nota (atualização 9-4-2010): Com o desmoronamento de um antigo depósito de lixo, ontem, cerca de 50 casas foram soterradas, e estima-se que em torno de 200 pessoas possam estar sob os escombros. O número de mortos pode passar dos trezentos.

7 comentários:

Fernando Gonzaga disse...

sei muito bem o que o povo do Rio de Janeiro está passando, pois SC viveu um drama parecido em 2008...é uma tragédia lamentável...estamos todos abalados com a situação de vocês aí, nossos queridos irmãos...

abraço e força meu amigo!!!!

Lewis Kharms disse...

Obrigado pelas palavras de solidariedade, Fernando.

Acompanhei os acontecimentos em Santa Catarina e fiquei muito consternado e chocado com a proporção dos desastres e o número de desalojados e desabrigados.

Fiquei pensando naquela baboseira que diz que o Brasil não tem vulcão nem terremoto. É, realmente não tem, e daí? Não basta o que temos?

Agora é continuar fazendo minhas coisinhas, votando em gente que se associa a projetos que visem a uma sociedade mais justa e um modelo de desenvolvimento sustentável. Levar uns quilos de alimento e uns cobertores que seriam lembrança dos tempos de acampamentos ao Canto do Rio e tocar a vida. Mais abalado e chocado com os fatos do que o de costume, por conta da proximidade dos acontecimentos.

Saudações botafoguenses!

Alberto disse...

Situação lamentável para a cidade que se vangloriava de ser a quarta em qualidade de vida do país e com o IPTU mais caro do Brasil.

Acorda prefeito!
Cadê a polícia?
Cadê o dinheiro do IPTU?

Um abraço!

Lewis Kharms disse...

Alberto, essa história dos vários governos incentivando e dando apoio estrutural à construção em terreno sobre um lixão é um absurdo inqualificável.

E o Mocarzel com sua calculadora, percebendo a tragédia como uma 'oportunidade' de negócio.

Saudações niteroienses!

Gil disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Gil disse...

Luiz,

Não tem vulcão, terremoto, mas temos algo bem pior! Temos os políticos!

Entra e sai governo (qualquer que seja o partido) e ninguém faz nada para melhorar a qualidade de vida das pessoas. Eles só sabem pedir milhões, que serão embolsados e meia dúzia de pessoas (normalmente os cabos eleitorais) ajudados.

Pior de tudo isso é que ninguém vai ser preso ou responsabilizado!

A maioria do povo continuará votando nessa corja que se aproveita da pobreza e desgraça do próximo.

Abs e Sds, BOTAFOGUENSES!!!

Lewis Kharms disse...

Gil, a imensa maioria dos políticos querem transformar o bem público em privado. E isso está consolidando uma ideia geral de que nenhum deles presta, além de aumentar a descrença na própria prática política. Isso não seria um problema em si, já que poderia ser encarado como uma crise dos valores vigentes e por consequência uma oportunidade para a implantação de uma nova ordem política. Mas esse fenômeno não se aplica ao público votante sobre o qual o paternalismo e o ‘voto de cabestro’ têm grande apelo. Ou seja, práticas políticas ruins são sustentadas por um público alvo que mantém políticos ruins no poder.

Em relação ao que aconteceu em Niterói. A imprensa está bombardeando as gestões que incentivaram a ocupação do Morro do Bumba (onde casas foram construídas em cima de um antigo aterro sanitário e no qual ocorreu o maior deslizamento por aqui). Mas esta imprensa não está pensando nas vidas perdidas e nem no prejuízo material das famílias. O que ela quer é fazer política também, fazendo a caveira de políticos pedetistas e petistas.

A imprensa já ‘confessou’ por intermédio de Maria Judith Brito, presidente da Associação Nacional dos Jornais, que está ‘fazendo oposição’, como demonstra o artigo do cineasta Jorge Furtado, amplamente favorável ao partido do governo. Está aqui: http://www.casacinepoa.com.br/o-blog/jorge-furtado/antiga-imprensa-enfim-assume-ser-um-partido

Não sou correligionário de nenhum dos grandes partidos políticos, nem simpatizo com eles. Acho que os políticos que atuaram e atuam na gestão do planejamento urbano são em sua maioria pilantras. A despeito disso acredito que a origem do problema da ocupação urbana não seja o planejamento urbano, mas, sim, a concentração de renda. Na verdade creio que esta seja a causa da maioria dos problemas sociais.

Saudações botafoguenses!