sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

O não-herói

(A Adoração do Bezerro de Ouro - Nicolas Poussin c. 1634 - fonte: Web Gallery of Art)

Lucio Flavio afirmou que “O jogador só é herói na vitória”. Discordo inteiramente. Na vitória o herói tem maiores chances de se tornar um ídolo, mas o heroísmo não tem nada a ver com resultados e nem com a idolatria.

Na verdade, a derrota pode revelar com mais evidência o espírito heróico do que a vitória. É na derrota que o caráter do sujeito tem suas cores realçadas.

Um exemplo disso foi a atuação de Herrera na partida contra o Vasco. O brio, o espírito de luta, a não-resignação deste jogador foi uma espécie de atenuante para meu abatimento com a goleada. Enquanto seus companheiros se mostravam entregues, aceitando a derrota quando esta parecia inevitável e depois que já era um fato consumado, Herrera disputava cada jogada como se fosse a última de sua vida.

A imagem-símbolo da disposição do ‘combatente’ argentino foi um lance, já no final da partida, em que Renato preferiu tentar o chute a gol ao invés de fazer o passe para um Herrera livre, na cara do gol. O placar já era 6 x 0. O gesto de indignação do jogador, com os braços estendidos para o alto, esbravejando como se perdêramos a chance de um gol de título, me deu uma certeza instantânea e definitiva de que estava diante de um guerreiro dos bons. Aquela imagem quase patética, dadas as circunstâncias da partida, me levou à sensação de que meu clube de coração tinha um bravo radicalmente obstinado defendendo nossa camisa. Herrera foi meu herói naquela hora e tudo indica que não fui o único a perceber sua excepcionalidade, pois a torcida parece também ter gostado de seu espírito de luta, seu comportamento olímpico.

Enquanto Herrera foi até o final de forma heróica, Lucio Flavio nem ao fim chegou. Se arrastou até onde pôde, e da forma trivial de sempre. Ao final da partida deu uma declaração ponderada como de costume, aparentou um traço tênue de abatimento. E só.

Quando vi a entrevista com Lucio Flavio fiquei revoltado, mas logo me aquietei, pois não era culpa sua. O acomodamento é matéria integrante do seu espírito.

Lucio Flavio pode se tornar um ídolo como muitos, porque ídolos podem ser criados por motivos circunstanciais. Herói, Lucio Flavio jamais será, na derrota ou na vitória, porque isso não é da sua natureza.

Saudações alvinegras!

7 comentários:

Fernando Gonzaga disse...

excelente texto meu amigo...

acho nunca li uma biografia do Lúcio Flávio tão pertinente...o nosso camisa 10 jamais será herói, tão pouco ídolo...

abraço!!!

Lewis Kharms disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Lewis Kharms disse...

Valeu, Fernando.

Só acho que para escrever uma biografia definitiva de ‘nosso capitão’ (essa foi só pra irritar...rs), precisaríamos de um redator mais paciente, um que conseguisse ir até o final sem roer o teclado, ou destruir o monitor à marteladas.

Saudações alvinegras!

Ruy Moura disse...

Luiz, arriscamo-nos aos dois únicos estrangeiros do time serem os seus únicos 'brigadores'. Espero que o Joel mude isso.

A>braços Gloriosos!

Lewis Kharms disse...

Rui, concordo integralmente.

Também espero que o Joel mexa com o espírito da equipe, e isso sempre acontece nas primeiras partidas com técnico novo. Quem sabe no meio desse plantel, já hipertrofiado, apareçam mais uns dois ou três... (Não serão como o 'desmedido', Herrera, porque o que vi neste sujeito é algo completamente fora dos padrões de conduta futebolística: o cara é olímpico). O problema é que contratam, mas os caras nem no banco se sentam. Por serem ruins demais, ou pra serem poupados da exposição pública ultrajante de Fahel.

Saudações alvinegras!

Luiz Kiss disse...

Cara, você é genial, disse tudo! Me cansa mais assiti-lo jogar sem garra do que ele mesmo "andando" em campo.

Lewis Kharms disse...

Ô, xará Luiz, nem tanto, meu amigo! rs. Estamos juntos.

O Lucio Flavio já me irritou mais. Hoje em dia, acho que ele anda muito desanimado e o futebol já não interessa mais a ele. Se ele nunca foi um jogador entusiasmado, agora se acomodou mais ainda, se tornando um jogador burocrático, sem ânimo e nenhum brilho. Pra quem acompanha os jogos nos estádios isso fica flagrante. Um sujeito cabisbaixo, sem ímpeto, sem vontade.

Acho que seus planos eram uma estadia no mundo árabe, que era realmente sua vontade quando voltou ao Botafogo – tanto que assinou um contrato sem multa rescisória de sua parte – e agora vê seus planos adiados até uma nova janela de transferência, o que deve ser penoso pra um cara que não é um apaixonado pelo futebol, mas apenas um ‘funcionário’ com a atribuição de jogar bola.

Saudações alvinegras!