sexta-feira, 10 de abril de 2009

Raça

Li no "Cantinho Botafoguense" que existe o interesse da direção do Botafogo em (re)contratar o Lucio Flavio. No "Blog-Clipping Malu Cabral" tem uma versão que fala de implicações orçamentárias, uma série de fatores complicadores da transação. Pra quem quiser saber dos detalhes, é só acessar estas páginas através dos links acima.
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Existiram, e por aí ainda existem, escritores que não eram, digamos, fisicamente avantajados, mas que suas obras eram extremamente vigorosas. Machado de Assis e Edgar Allan Poe se enquadram nessa categoria. Mas houve também os que foram voluptuosos e insinuantes fisicamente, confundindo-se com sua arte e, inclusive, interferindo na própria matéria de sua obra, como Ernest Hemingway e Fausto Wolff. Seria a virilidade dependente do vigor físico?

O Túlio Maravilha não era propriamente franzino, mas também não tinha o vigor do Donizete - isso pra ficar entre companheiros de uma mesma equipe. (Se quimeras dessem certo, uma fórmula Túlio+Donizete daria um Jairzinho?...). Bem, a questão é: o Túlio era ou não era um jogador viril? Por mais que a aparência blasé indicasse tratar-se de um sujeito desinteressado, apático, frio, meio fora de sintonia com o que uma partida de futebol simboliza e exala, ele estava lá, sempre atento às chances e pronto pra deixar a sua marca. Ele tinha sede de vitória.

O jogador de futebol Zagalo, que vi nos fragmentos clássicos de Copas do Mundo, pode bem sintetizar a idéia de que um jogador não tem que ser o atleta mais forte, mais veloz, o de técnica mais apurada. Era a perna de quem senão a dele que estava lá para o que desse e viesse na final de 58?

O grande atributo que diferencia fundamentalmente os jogadores de futebol com os quais um time pode contar de seus opostos é o espírito olímpico. Não falo desse negócio de “saber perder”, de “o que vale é competir”. Tudo bem, concordo, mas não é isso. Eu falo é de dar o sangue até o fim; de esquecer o bom-mocismo na hora da decisão; de deixar a vaidade de lado e dar um chutão horroroso se precisar; de não desistir até o apito final e sentir-se mais honrado ainda, se ao deixar o campo puder exibir um uniforme pateticamente enlameado; de insistir até a morte em entregar uma mensagem. O Jairzinho era assim.
Link Zagalo 58
Link Jairzinho 70

A cena do Didi em 58 pegando a bola no fundo da rede como quem acolhe uma criança desvalida, voltar lentamente ao centro do campo ,dando tempo para a euforia sueca esvair-se e as cabeças brasileiras reerguerem-se, recomporem-se, e em seguida acionar o Garrincha para que o Representante de Deus aterrorizasse instantaneamente os adversários, para espanto dos suecos e do resto do mundo, é coisa que nunca mais se viu semelhante. O Didi era tão magrinho. Mas era um líder. Ele pegou a bola, recolheu o que poderia ser visto como um resto inútil numa lixeira - numa atitude que a mentalidade cortesã e pseudo-aristocrática brasileira entenderia como comportamento subalterno - e restituiu à bola a indentidade perdida, além de transformá-la em sua aliada, sua arma. A maior liderança em campo da história do futebol brasileiro.

Agora, o que se vê por aí? O cara quer saber é de meião bem ajeitado, cabelo emplastado com gel. Sobra vaidade e soberba. Onde está a garra, a vibração, o brio, a tal raça? Onde está a liderança dentro de campo? Concordo com o Rodrigo Federman do ótimo “Cantinho Botafoguense” quando diz: “Enquanto isso, nossos santinhos engolem tudo quietinhos e elogiando o "professor".”

Torço pra que o espírito impetuoso do trio Maicosuel, Victor Simões e Reinaldo prevaleça no final. E que os jogadores comemorem os gols juntos, antes de ir comemorar com o técnico.

Saudações alvinegras!

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